segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Conto 4 (Inúteis Fatos Reais)

Agora Cazuza me convida seguir uma viagem em “Um Trem para as Estrelas”. - Ainda é dia! Eu respondo. - Quero ver o sol ou pelo menos o céu azul.
Os barquinhos parecem formigas na imensidão, eu, uma astronauta cheia de apetrechos encima da mesa. Roupa quente em dia de verão. Ousadia é rimar sem métrica e criticar o Axé nesta estação.
Peixinhos de brinquedo são abandonados na areia da praia. - Mamãe, eles morrem fora d’água”? Pergunta a menininha de pés descalços. Queria sinceramente que a mãe respondesse: eles morrem sim, tem que cuidar e dar muito carinho. Mas ela se resume em resmungar com má vontade: - Morre não, é de mentira!
Que triste! Logo, logo a menina vai pensar que Papai Noel não existe... Falta encanto, sobram fatos reais. Nada importa, temos na TV futilidades demais.

Conto 5 (Vende-se)

Era uma casa de praia sem areia no chão, sem correria de crianças, com sofá vazio e fogão desligado. Sozinha, naquela imensidão inadequada.
Encontro marcas de pés pequenos na parede da frente. Nos quartos, vejo quadros de dicas para viver bem. Olho a data: 1995. Olho detalhadamente as marcas e descubro que os pés pequenos eram meus. Sem peso na consciência, sigo nada que os quadros mandam. Estamos em 2009.
A mesma praia, a mesma casa e novos medos. Antes, o quintal era o refúgio. Hoje, a placa Vende-se amedronta. Outras pessoas sonharão meus sonhos na cama empoeirada.
O vídeo-game nem espera por mãos aflitas. Minhas primas seguiram sua vida. A rede, vazia.
Casa de praia e nenhuma cerveja na geladeira fantasma. Não há música, nem desenhos de sol no chão. A única coisa que encontro é Renata de cara com o passado, ouvindo o Barquinho, relembrando a infância e o verão.

Conto 6 (Ainda é Janeiro)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Rabo de Olho





“É realmente cômico o espetáculo da humanidade”.

Demócrito (filósofo grego)

Pelo “rabo da memória” escrevo o que os olhos vêem e o coração sente. Ora bolas, não sou o Cupido de vendas nos olhos para não perceber os defeitos dos outros. Também dessa forma, peço que os leitores do livro Rabo de Olho tirem as vendas e os (pré) conceitos instalados na infância por certos tipos de pais. Será que no pão nosso de cada dia, dentro do lar, todos estarão longe de safadezas, mentiras ou vícios? Não sei, mas sou pássaro livre, acompanho morcego e acordo de cabeça para baixo, porque o mundo está, literalmente, de pernas para o ar.
Na escrita do “rabo da mão” permito descontentar-me de mim mesma (o pleonasmo foi proposital) e admirar o outro. A quem admiro? A professora e jornalista Luciana Máximo. Não com a bajulação, tão comum nos meios sociais – sempre carregadas de solenes lisonjas – mas uma admiração nua e crua por sua coragem de estampar a nudez da podridão da sociedade.
O “rabo da tecnologia” tecla as teclas do notebook e encontra no Desktop (área de trabalho) uma frase que diz tudo: há quem se melindre menos com graves blasfêmias contra Jesus Cristo do que com o mais leve gracejo em relação a um papa ou a um rei. Está aí a definição indefinida que eu procurava. Trazendo a frase para os tempos atuais, sem desmerecer de forma alguma a Obra “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Roterdam, modifico-a dizendo que há quem fique mais “puto da vida” quando se fala a verdade sobre esses políticos escrotos, do que uma grave blasfêmia contra as manifestações da natureza (o que nada mais é que Deus numa só manifestação).
O livro – repleto de temas e poesias de tirar o fôlego – consegue ferozmente arregalar a pupila, abrir a boca, cair o queixo e fonetizar resmungos: – Nossa! É assim mesmo como ela diz! É isso o que acontece! Como ela teve coragem?!? Será que aqui ela falou de fulano? Hum! Tenho certeza de que nessa poesia ela falou de Beltrano (bem feito pra ele). E por aí vão os comentários, a maioria oriunda de quem continua, covardemente, dentro do armário.
E fora do armário, mas dentro do quarto, somos convidados a assistir, nesse caso ler, o Big Brother das safadezas da sociedade, todas cometidas embaixo do edredom, é obvio. Quem aceita uma taça de vinho para acompanhar a cena? Não há pipoca, mas têm dinheiro no cofre, malas abarrotadas, tiros disparados em pessoas indefesas, entre outras mazelas do mundo. Cadê você, Gabriel O Pensador pra transformar as poesias de Luciana em rap?
Esqueço o Pensador do Rio de Janeiro e converso com O Pensador de Cachoeiro...
E pergunto com intimidade: Evandro, afinal, o livro da Lú é pornográfico? Ele meneia a cabeça, faz que sim nem que não e alfineta: “considerando que a maioria dos termos chulos utilizados pela autora já fazem parte do vocabulário popular – já ouvimos de senhoras e senhoritas os termos ditos pornográficos e, principalmente, de jovens, na conversação comum. Na verdade as palavras são inofensivas, a intenção do emissor é que ofende, intimida, choca. O resto é hipocrisia. Acredito que a verdadeira imoralidade são alguns atos dos políticos que elegemos e aplaudimos”.
Então, quem somos nós, leitores vorazes com o livro escancarado nas filas dos bancos, dentro dos ônibus, nos bares, lares e camas (lembrei de Ney Matogrosso) para julgarmos um livro que busca o direito de viver cada dia, a liberdade de dizer verdades?
E quem são eles, curiosos mesquinhos, escondidos em mausoléus com o livro entreaberto nas “mãos leves?” São apenas ratos escrotos, que assim como levam, ilicitamente, o nosso dinheiro dentro do bolso, carregam, com muito receio o Rabo de Olho para dentro do buraco imundo de podres caminhos.
Enfim, Rabo de Olho abala qualquer estrutura... e para rimar: tenham uma ótima leitura!
* Artigo Publicado do Jornal ES De Fato

domingo, 21 de dezembro de 2008

Não Sou do Seu Rebanho


O óbvio é que não faz parte do meu mundo
E por não ser desse rebanho
É apenas mais um estranho

Para o amor não há nada disso
Então é desperdício não te amar
E dividir o meu tempo com você

Tudo tão triste e engraçado
Quem não quero, tenho por perto
Quem eu amo, pertence à distância
E mora do outro lado

Amigos e sorrisos na mesa
Seu olhar uma súplica e um pedido
Que não mastigo nem como sobremesa

Sou de agito e muita gente
Você, banho-maria deprimente

Seus lábios, muita conversa
Minha garganta, tanta gritaria
Seus passos, nenhuma pressa
Minhas pernas, constante correria

Nos conhecemos há anos
Mas por "baixo dos panos"
Os segredos de liquidificador
São apenas enganos

Se não faço o que sua vontade quer...
Se não sigo o caminho que manda...
É porque sou uma mulher que não deita...
Sou mulher que anda...

Não Somos Donos Dele


Até que ponto levamos a sério a fé? De onde nasceu a “ousadia” em resumi-la como simples instrumento de vaidade?

Quando Deus é encontrado na cristaleira (ao lado dos cristais) percebemos um grande paradoxo, visto que é “dito por aí” que só alcançaremos o céu se tivermos humildade.Quantas pessoas colocam Jesus Cristo dentro da carteira, na louca ansia de ter mais do que ser?


Muitas vezes oferecemos dez por cento aos representantes de instituições “respeitáveis”, mas e ao próprio Deus, o que estamos oferecendo, além de súplicas e lamentações?Precisamos deixá-Lo em paz e não fazer de Sua vida um inferno. Não somos donos Dele, tampouco, escravos.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Stramberry Fields Forever


“Deixe-me te botar pra baixo
Porque eu estou indo aos Campos de morangos
Nada é real
Não há por que esperar"

Idéias e vômitos dentro do vaso.

Beatles, letras e cores, momentaneamente, psicodélicas.

Loucuras correm descalças no asfalto que queima os pés. Em Liverpool, apenas Paul anda descalço (o defunto no encalço de Ringo).

Pés apressados e tortos sujam-se nas lamas, lares, bares e camas... Ney Matogrosso é quem berra isso num radinho de pilha da casa ao lado. Meus ouvidos inconstantes e indecisos não sabem o que quer ouvir. Dentro da quarta casa o som é mais alto, no quarto parágrafo as letras se estendem; dentro do quarto, os travesseiros não confortam.

Mensagens subliminares e uma possível morte. Preparo-me para o funeral e para a chegada de Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band...

Coração Solitário ainda preso entre as cartas no armário.

John Lennon dedilha histórias sobre pés de morango: Stramberry Fields Forever?

Aqui, nesse fim de mundo não há morangos, e nem posso me lambuzar embaixo da mangueira... Ouvi certos rumores que Dear Prudence jamais deixaria.

Help! I need somebody!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Porta-retrato



Feijão borbulhando na panela
Olhos castanhos nos olhos dela
Ela, imortalizada no porta-retrato
Cerveja na mão, sorriso de lado

Copos, plásticos, vidros sujos na pia
Do porta-retrato saem lágrimas
Chão e roupa molhada
A pele arrepia

Roupas sujas no armário
Pregador? Amaciante? Varal? Sabão em pó?
Possíveis reencontros no calendário
Porta-retrato apenas enfeite - totalmente só

Contas, músicas, preguiças, livros, telefonemas
Boas doses das poesias e crônicas de Milena
Porta-retrato que carrega um tanto de nova poeira
Recebe ainda flanela pra limpar o passado da sujeira

Noite solitária de sonho ruim
A luz verde-esperança do abajur alumia:
O irônico porta-retrato está bem acordado
E piscando o “zóio” pra mim

E eu vou entrar
Com ou sem foco
Tomar sua cerveja
E sorrir, também, para a foto

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sozinha num Apartamento


Sozinha num apartamento
Tenho os amigos em fotos na parede
Os familiares na lembrança e na mala lotada
O violão nas costas e em mãos cansadas
Ouço vozes que são ecos
Eu me desconcentro e me desconecto
Faço rimas para o encanamento
Compro guarda-chuva: está chovendo!
Subo atrapalhada a escada
Há ninguém me esperando de madrugada
Mexo e remexo as gavetas
Faço um pano de chão da camiseta
Cuido da jabuticabeira
E da despensa lotada de bobeira
Tento abrir o atum enlatado
Cadê o abridor? Sumiu, o desgraçado!
As visitas são feitas por telefone
Sem ninguém gritando meu nome
Percebo – tremendo – que o chuveiro não é quente
“Mamãe, vem morar comigo e me traz a toalha,
Minha boca já está dormente!”
Rezo para que não apareçam baratas
Comprei Cotrim, Raybom e veneno da mata
Me mato se ela não morrer e mexer as patas
Não preciso trancar as portas do banheiro
Quem que vai reclamar do cheiro?
Vou ter mais tempo pra gastar
Loucuras pra rimar
E pessoas pra ligar
Sozinha num apartamento
Eu paro, respiro, choro e penso:
Volto para Mimoso ou compro um lenço?

sábado, 20 de setembro de 2008

Sem nome de flor, intitulada Amor


Conheço uma menina que nem tem
nome de flor
porque pra ser flor
não precisa ter nome ou sobrenome

Basta ter cheiro, sorriso, carinho
na paz, apenas pétalas
na guerra, a dor do espinho

A flor não é de plástico
ela pulsa, vive, é serena
prima Luyla, neta de Vovó Helena

A flor sempre regada
faz borbulhas e gracejos
não brota na calçada
ela nasce com amor e beijo

Eu conheci uma flor
que brotou no meu jardim
que mesmo pequenininha (do tamanho de um botão)
veja só! Sabe até cuidar de mim!

Flor de caneta na mão
Flor menina-poeta
Flor oito anos de vida
Flor crescendo...
Flor alcançando sua meta

Linda flor que lê poesia
e fica toda prosa
vou adentrar no teu jardim
e lhe oferecer uma rosa




quarta-feira, 17 de setembro de 2008

COTIGALHANDO


E viva aos olhos claros e diretos da professora Sarah Passabom!!!


O que é cotigalhar?
É gargalhar e gargalhar

Gargalhar com tristeza a mesmice do cotidiano
É mostrar o que somos apenas “embaixo dos panos”
É dar às caras, virar a bunda e arreganhar os dentes
É brotar nos palcos como uma semente

Os palhaços entram em cena e os normais se incomodam
O espaço do palco é amplo, mas os artistas não se podam
E no meio da platéia eles se intrometem e se acomodam
As cortinas não se fecham, mas as cadeiras nos enxotam

Quando os artistas se enfeitam, a expectativa nos convém
Quando eles representam, percebemos que somos um zé ninguém

São batons, pinturas, roupas e adereços
É meu olhar admirado que nem sempre reconheço
E é o calor do dia-a-dia esquentando a bafurinha
É o efeito estufa estufando a barriga da palhacinha

Shakespeare dizia que a vida é um palco errante
Os convidados sobem ao palco e fazem parte desse instante
Uns servem de espelho, outros de vaso sanitário
Uns dobram os joelhos e quem se esconderia no armário?

São mímicas, mágicas, banho, almoço e calor
São viagens, segredos, curtição e dor de amor
São os gestos implícitos e expressos
Expressões ritmadas num mundo desconexo

São as cenas em que nos encaixamos
Nos deslizes que tanto nos envergonhamos
Somos cachorros famintos e no cio
Somos a coleira de um mundo que está por um fio

A problemática da fome, violência e pecado
Escurecem o palco de um mesmo lado
E fazem da dor de cotovelo e do lenço encatarrado
Apenas um detalhe romântico e ultrapassado

São as faces da sociedade representadas na cara dos alunos
São os pecados capitais tirando os artistas do prumo
É o amanhecer e a insegurança do que está por vir
É o anoitecer, o fim do espetáculo e o público a aplaudir

Cotigalhando os artistas se despedem
Cabeça para cima e para baixo - assim eles agradecem
E aos que saíram do comodismo e foram ao teatro
Os “Cotigalheiros” fazem até uma prece


quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Revertério da Auto Ajuda

Mofaste... (Quase Mofatti)
Mofastes nas trevas
E virastes folha rasgada
do livro Renata Mofatti

Desiste do alpiste, ô “seu” passarinho!
Desiste do céu azul, ô tempo nublado!
Desiste do "alô", senhorita telefonista!
Desiste do volante, ô senhor motorista!
Desista da rima, ô reles poeta!
Desista da dieta, ô magrela anoréxica!

Desistas tu também
Não te espelhes em Sílvio Santos
Hoje tão rico
Antes um "pobrinho"
Um Zé Ninguém

Não olhes para o lado
Nem para o ex-amigo que tenhas te magoado
Hoje ele te engoles mais bonito
Mais feliz e... mais amado

Desaprendas as coisas dos livros
Aprendas as sujeiras nas gretas do mundo
Sejas um cão sarnento
E vanglories teu corpo imundo

Não use tecla, tinta ou caneta
Esqueças de tua meta
Sejas um livro sem letra

Minutos de Sabedoria ou Quem Mexeu no Meu Queijo?
O Caçador de Pipas ou Paz é o Que Almejo?
Seja como for, auto ajuda ou despejo
Prefiro seguir meu caminho
E dar tapas em quem gostaria de dar um beijo

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Embaraços do Verão


“Vem chegando o verão, um calor no coração...”


Bem-vindos a estação que faz da contradição sua marca registrada. Se chove, são pingos pra dar enchente, se faz sol, é do tipo que seca o oceano. Estação em que as pessoas se vestem mais à vontade e se sentem menos presas. Concordo, mas quem dera se eu pudesse aderir a barriguinha de fora e aos shorts bem curtos! O pneu acoplado ao meu corpo e as mais novas celulites – provenientes do inverno passado – não me permitem tamanha exposição.


Mesmo assim, insisto em ir à praia, deitar na canga e perceber, tristemente, que as pessoas saem correndo quando me vêem que nem um siri-fantasma-branco estirado na areia. Então, me levanto, me escondo e passeio pelas pedras de Piúma, mas os olhares de espanto dos veranistas denunciam: eles me confundiram com uma lagartixa!E se o problema é a minha brancura, o negócio é caminhar, pois assim tomo sol disfarçadamente sem que ninguém perceba minha real intenção: ficar morena. Só que meu sonho, ou melhor, meu desejo de morenice escorre por água abaixo, porque basta meia hora de sol escaldante para que eu fique mais vermelha que o elefante do extrato de tomate da Cica. E tome água de coco, pois sempre desidrato.


Ah! E os axés dos trios elétricos! Quem me vê dançando, berrando e me esbaldando (encorajada pelos goles a mais) nem imagina o quanto detesto aquelas músicas. Vamos na “onda, onda, olha a onda! Cuidado, o Tubarão vai te pegar!” Tubarão? Nas águas rasas de Piúma? Só mesmo se estiver encalhado. Aliás, água é o que sempre falta no litoral, principalmente na minha garganta. Será que confundo os copos d’água com garrafas de cerveja? Sei lá, mas os donos das barracas já conhecem minha preferência ao responder pro garçom: qualquer uma, desde que esteja gelada, a garota não é exigente!


Chega à noite e não sei o quê fazer, nem para onde ir. Será que me espremo com os mimosenses nas Feiras do Sol? Ou vou tomar um sorvete com todas aquelas coberturas que certamente me farão ver vagalumes no outro dia? Talvez uma boite com as mesmas músicas que ouvi durante o ano todo! Eu sempre fico com a melhor, mais típica e “tranqüila” das opções: um lual. E o que vestir? Tudo me arde e me coça, a insolação me deixa com sono e na fossa. É feio ficar de biquíni, durante a noite, enquanto todos estão arrumadinhos? Mas se eu for pra casa colocar uma roupa sei que vai dar preguiça e abraçarei o travesseirinho...


Meio embaraçada eu durmo, acordo e não entendo nada. Meus familiares querem fazer uma churrascada. E coisa que não engulo na praia são os churrascos dentro de quintal. Sou a última a chegar e a primeira a sair. Não que eu não queira a presença deles, mas é que ficar em quintal – sem olhar para o mar – é bem menos atrativo que comer um peroá lotado de gordura velha, e mesmo assim delicioso, nos quiosques de frente para as ondas e com os pés na areia. Passamos o ano inteiro trabalhando em salas fechadas e olhando para as mesmas caras e, quando temos a oportunidade de conhecer gente nova vamos nos trancafiar em quintais? Never, never more... Vamos à la praia, ô, ô, ô, ô, ô...

E o verão vai terminando, enquanto meus olhos fazem enchente ao se despedirem do Monte Aghá. E os embaraços do verão vão embaraçando meu cabelo tingido, ventando em minha saia, atrasando minha hora de dormir por conta da gandaia. Eu me embaraço em grande paradoxo, não me entendo e me enrolo... Sequer suporto essa estação, mas bem que eu gostaria – que nessas horas de despedida – o sol me pegasse no colo.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Não Engulo


Xerox mal tirada
Carne mal passada
Fila de espera sem assento
Ralar a bunda no cimento

Ar condicionado ressecando o nariz
Medo de ficar por um triz
Covardia com animais
Enchentes e temporais

Dormir toda tapada
Debochar de uma desgraça
Dar voto nulo
Ouvir disco "chulo"

Salgados gordurosos
Extermínio de judeus e leprosos
Curva sem sinalização
Trocar um livro por televisão

Falar da vida alheia
Não notar a lua cheia
Pensar só no futuro
Desprezar o claro ou o escuro

Casas com barata
Leite com nata
Filme X platéia falando
Dormir e acabar não sonhando

Bebidas mais caras
Comidas mais raras
Bom senso, o bom gosto
Celular que cai do bolso

Quem diz que sou cachaceira
Não sair na sexta-feira
Todo vício em remédio
Dormir de tanto tédio

Desprezar uma idéia original
Trio Elétrico no carnaval
As novelinhas da Rede Globo
Willian Bonner e sua cara de bobo

Casamento sem amor
Problema nos rins: grande dor
Drogas no meu bairro, em minha esquina
Passeata do flamengo e buzina

Qualquer tipo de número ou conta
Não "fazer o quatro" quando estou tonta
Coca-Cola sem gás
Esquecer de quem ficou para trás

Enfim, não engulo
Abandonar livro e poesia
E estudar para a prova de Economia

sábado, 9 de agosto de 2008

CARTA DA LUA (para minha prima Gisela)



Por que estou parada aqui? Já era para eu ter ido embora. Será que preciso que me olhes mais uma vez. Sei, eu gosto do jeito que me olhas e me visita de madrugada. Te vejo como um ser humano na ansiedade de conseguir o que se quer.
Ei Gi... Eu estou aqui, esperando por seus olhos vidrados. Ora cheia... Cheia de problemas, ora vazia... Vazia de lamentações, ora crescendo... Crescendo para os ensaios da vida, ora minguando... Minguando diante da enorme pequenez do mundo.
Sou como uma gota na imensidão. Sou o vestígio do que fui pelas madrugadas aparecendo numa manhã quase nublada. E, o que fui pelas madrugadas? Eu fui a Rainha da Noite entre tantas estrelas, fui o seu motivo para chegar até a janela e me ver. Por quantas e quantas vezes tenho banhado as suas lágrimas. Ah! Se soubesses o quanto eu a conheço talvez perdesse o encanto que tens por mim, porque na verdade não sou nada demais, se pensares bem sou apenas uma lua que cintila.
Será que gostas de mim por minha determinação, pois venço os prédios e, quando desejo, escondo-me através das nuvens "tapando a cara" de vergonha diante da frieza dos seres humanos. Passo por tubulações, mas não desisto. Continuo aqui, vendo mais de mil gerações crescerem e desaparecerem tão inexplicavelmente quanto surgiram.
Numa conversa com as estrelas descobri que foi Deus quem me fez e, que esse mesmo Deus fez você, então está explicado o porquê de nossa sintonia. Mas, ao mesmo tempo em que descobri essa coisa linda, também ouvi algo lamentável de uma estrela bem antiga. Ela soube que ensinam nas escolas que eu não possuo vida, e que sou desprovida de qualquer coisa que possa valer a pena (deixa para lá, quem sou eu para discutir as idéias dos homens), o que sei é que as crateras que possuo em mim são justificadas pela eterna falta que minhas filhas me fazem.
Seria gratificante que dissesse sempre para as pessoas o quanto gosta de mim, sei que elas me enxergam com outros olhos. Já notei que me esperam e, muitas vezes, choram quando não conseguem me ver. Queria ajudá-las, mas não posso, o máximo que posso fazer é demonstrar através de minhas fases que as coisas podem mudar. Acho até que elas me entendem, mas sentem-se perdidas com minha amarga ausência.
Já te vi muitas vezes chorando pela falta que eu lhe causo, por quanto tempo deve ter xingado aos céus por tamanha tristeza e indignação. Nessas horas, eu morria por dentro e por fora. Sei que não sou a causadora de sua dor, mas sou culpada porque agora não tenho mãos para secar suas lágrimas, nem o abraço para te acalentar.
E é por isso que sempre apareço cada vez mais bela, descobri que isso te comove. E, como é lindo o seu sorriso e a sombra de sua saudade refletida no chão. Queria muito ter pernas, não só para seguir seus passos, mas sim para voltar a caminhar ao seu lado.
Sou a sua lua, sua marca registrada, a mesma lua que enlouquece os amantes num espaço próximo ou distante. Sou o enigma das coisas que diz e não termina de dizer e isso me deixa submersa tentando entender suas mensagens, assim como os amantes tentam decifrar minhas figuras.
Sou a sua lua de sorte, sua visita mais desejada. Sou a testemunha do maior espetáculo da natureza: seus olhos claros, esperançosos e aflitos me esperando!
Então, depois de milhões de anos de espera e de admiração em todas as suas reencarnações, acabei conhecendo uma estrela cadente bem doidinha que não parava de piscar. A tal da estrelinha disse que me ajudaria no que fosse necessário e me deu até a idéia de escrever-te, veja só! Ela foi para o seu planeta para aprender a escrever, a ler e a sentir amor, passou uns dias escondida vendo como você era dentro de casa, no trabalho, com os amigos, com o seu marido e familiares. Enfim, essas coisinhas que infelizmente, não consigo mais ver. Aí, a estrelinha voltou cheia de história para contar. Por isso, estou enviando a minha cartinha pelas mãos dela. E Gisela, receba essa carta com todo o carinho e me encontre onde estou feliz, me procure no céu!