segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Stramberry Fields Forever


“Deixe-me te botar pra baixo
Porque eu estou indo aos Campos de morangos
Nada é real
Não há por que esperar"

Idéias e vômitos dentro do vaso.

Beatles, letras e cores, momentaneamente, psicodélicas.

Loucuras correm descalças no asfalto que queima os pés. Em Liverpool, apenas Paul anda descalço (o defunto no encalço de Ringo).

Pés apressados e tortos sujam-se nas lamas, lares, bares e camas... Ney Matogrosso é quem berra isso num radinho de pilha da casa ao lado. Meus ouvidos inconstantes e indecisos não sabem o que quer ouvir. Dentro da quarta casa o som é mais alto, no quarto parágrafo as letras se estendem; dentro do quarto, os travesseiros não confortam.

Mensagens subliminares e uma possível morte. Preparo-me para o funeral e para a chegada de Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band...

Coração Solitário ainda preso entre as cartas no armário.

John Lennon dedilha histórias sobre pés de morango: Stramberry Fields Forever?

Aqui, nesse fim de mundo não há morangos, e nem posso me lambuzar embaixo da mangueira... Ouvi certos rumores que Dear Prudence jamais deixaria.

Help! I need somebody!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Porta-retrato



Feijão borbulhando na panela
Olhos castanhos nos olhos dela
Ela, imortalizada no porta-retrato
Cerveja na mão, sorriso de lado

Copos, plásticos, vidros sujos na pia
Do porta-retrato saem lágrimas
Chão e roupa molhada
A pele arrepia

Roupas sujas no armário
Pregador? Amaciante? Varal? Sabão em pó?
Possíveis reencontros no calendário
Porta-retrato apenas enfeite - totalmente só

Contas, músicas, preguiças, livros, telefonemas
Boas doses das poesias e crônicas de Milena
Porta-retrato que carrega um tanto de nova poeira
Recebe ainda flanela pra limpar o passado da sujeira

Noite solitária de sonho ruim
A luz verde-esperança do abajur alumia:
O irônico porta-retrato está bem acordado
E piscando o “zóio” pra mim

E eu vou entrar
Com ou sem foco
Tomar sua cerveja
E sorrir, também, para a foto

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sozinha num Apartamento


Sozinha num apartamento
Tenho os amigos em fotos na parede
Os familiares na lembrança e na mala lotada
O violão nas costas e em mãos cansadas
Ouço vozes que são ecos
Eu me desconcentro e me desconecto
Faço rimas para o encanamento
Compro guarda-chuva: está chovendo!
Subo atrapalhada a escada
Há ninguém me esperando de madrugada
Mexo e remexo as gavetas
Faço um pano de chão da camiseta
Cuido da jabuticabeira
E da despensa lotada de bobeira
Tento abrir o atum enlatado
Cadê o abridor? Sumiu, o desgraçado!
As visitas são feitas por telefone
Sem ninguém gritando meu nome
Percebo – tremendo – que o chuveiro não é quente
“Mamãe, vem morar comigo e me traz a toalha,
Minha boca já está dormente!”
Rezo para que não apareçam baratas
Comprei Cotrim, Raybom e veneno da mata
Me mato se ela não morrer e mexer as patas
Não preciso trancar as portas do banheiro
Quem que vai reclamar do cheiro?
Vou ter mais tempo pra gastar
Loucuras pra rimar
E pessoas pra ligar
Sozinha num apartamento
Eu paro, respiro, choro e penso:
Volto para Mimoso ou compro um lenço?

sábado, 20 de setembro de 2008

Sem nome de flor, intitulada Amor


Conheço uma menina que nem tem
nome de flor
porque pra ser flor
não precisa ter nome ou sobrenome

Basta ter cheiro, sorriso, carinho
na paz, apenas pétalas
na guerra, a dor do espinho

A flor não é de plástico
ela pulsa, vive, é serena
prima Luyla, neta de Vovó Helena

A flor sempre regada
faz borbulhas e gracejos
não brota na calçada
ela nasce com amor e beijo

Eu conheci uma flor
que brotou no meu jardim
que mesmo pequenininha (do tamanho de um botão)
veja só! Sabe até cuidar de mim!

Flor de caneta na mão
Flor menina-poeta
Flor oito anos de vida
Flor crescendo...
Flor alcançando sua meta

Linda flor que lê poesia
e fica toda prosa
vou adentrar no teu jardim
e lhe oferecer uma rosa




quarta-feira, 17 de setembro de 2008

COTIGALHANDO


E viva aos olhos claros e diretos da professora Sarah Passabom!!!


O que é cotigalhar?
É gargalhar e gargalhar

Gargalhar com tristeza a mesmice do cotidiano
É mostrar o que somos apenas “embaixo dos panos”
É dar às caras, virar a bunda e arreganhar os dentes
É brotar nos palcos como uma semente

Os palhaços entram em cena e os normais se incomodam
O espaço do palco é amplo, mas os artistas não se podam
E no meio da platéia eles se intrometem e se acomodam
As cortinas não se fecham, mas as cadeiras nos enxotam

Quando os artistas se enfeitam, a expectativa nos convém
Quando eles representam, percebemos que somos um zé ninguém

São batons, pinturas, roupas e adereços
É meu olhar admirado que nem sempre reconheço
E é o calor do dia-a-dia esquentando a bafurinha
É o efeito estufa estufando a barriga da palhacinha

Shakespeare dizia que a vida é um palco errante
Os convidados sobem ao palco e fazem parte desse instante
Uns servem de espelho, outros de vaso sanitário
Uns dobram os joelhos e quem se esconderia no armário?

São mímicas, mágicas, banho, almoço e calor
São viagens, segredos, curtição e dor de amor
São os gestos implícitos e expressos
Expressões ritmadas num mundo desconexo

São as cenas em que nos encaixamos
Nos deslizes que tanto nos envergonhamos
Somos cachorros famintos e no cio
Somos a coleira de um mundo que está por um fio

A problemática da fome, violência e pecado
Escurecem o palco de um mesmo lado
E fazem da dor de cotovelo e do lenço encatarrado
Apenas um detalhe romântico e ultrapassado

São as faces da sociedade representadas na cara dos alunos
São os pecados capitais tirando os artistas do prumo
É o amanhecer e a insegurança do que está por vir
É o anoitecer, o fim do espetáculo e o público a aplaudir

Cotigalhando os artistas se despedem
Cabeça para cima e para baixo - assim eles agradecem
E aos que saíram do comodismo e foram ao teatro
Os “Cotigalheiros” fazem até uma prece


quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Revertério da Auto Ajuda

Mofaste... (Quase Mofatti)
Mofastes nas trevas
E virastes folha rasgada
do livro Renata Mofatti

Desiste do alpiste, ô “seu” passarinho!
Desiste do céu azul, ô tempo nublado!
Desiste do "alô", senhorita telefonista!
Desiste do volante, ô senhor motorista!
Desista da rima, ô reles poeta!
Desista da dieta, ô magrela anoréxica!

Desistas tu também
Não te espelhes em Sílvio Santos
Hoje tão rico
Antes um "pobrinho"
Um Zé Ninguém

Não olhes para o lado
Nem para o ex-amigo que tenhas te magoado
Hoje ele te engoles mais bonito
Mais feliz e... mais amado

Desaprendas as coisas dos livros
Aprendas as sujeiras nas gretas do mundo
Sejas um cão sarnento
E vanglories teu corpo imundo

Não use tecla, tinta ou caneta
Esqueças de tua meta
Sejas um livro sem letra

Minutos de Sabedoria ou Quem Mexeu no Meu Queijo?
O Caçador de Pipas ou Paz é o Que Almejo?
Seja como for, auto ajuda ou despejo
Prefiro seguir meu caminho
E dar tapas em quem gostaria de dar um beijo

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Embaraços do Verão


“Vem chegando o verão, um calor no coração...”


Bem-vindos a estação que faz da contradição sua marca registrada. Se chove, são pingos pra dar enchente, se faz sol, é do tipo que seca o oceano. Estação em que as pessoas se vestem mais à vontade e se sentem menos presas. Concordo, mas quem dera se eu pudesse aderir a barriguinha de fora e aos shorts bem curtos! O pneu acoplado ao meu corpo e as mais novas celulites – provenientes do inverno passado – não me permitem tamanha exposição.


Mesmo assim, insisto em ir à praia, deitar na canga e perceber, tristemente, que as pessoas saem correndo quando me vêem que nem um siri-fantasma-branco estirado na areia. Então, me levanto, me escondo e passeio pelas pedras de Piúma, mas os olhares de espanto dos veranistas denunciam: eles me confundiram com uma lagartixa!E se o problema é a minha brancura, o negócio é caminhar, pois assim tomo sol disfarçadamente sem que ninguém perceba minha real intenção: ficar morena. Só que meu sonho, ou melhor, meu desejo de morenice escorre por água abaixo, porque basta meia hora de sol escaldante para que eu fique mais vermelha que o elefante do extrato de tomate da Cica. E tome água de coco, pois sempre desidrato.


Ah! E os axés dos trios elétricos! Quem me vê dançando, berrando e me esbaldando (encorajada pelos goles a mais) nem imagina o quanto detesto aquelas músicas. Vamos na “onda, onda, olha a onda! Cuidado, o Tubarão vai te pegar!” Tubarão? Nas águas rasas de Piúma? Só mesmo se estiver encalhado. Aliás, água é o que sempre falta no litoral, principalmente na minha garganta. Será que confundo os copos d’água com garrafas de cerveja? Sei lá, mas os donos das barracas já conhecem minha preferência ao responder pro garçom: qualquer uma, desde que esteja gelada, a garota não é exigente!


Chega à noite e não sei o quê fazer, nem para onde ir. Será que me espremo com os mimosenses nas Feiras do Sol? Ou vou tomar um sorvete com todas aquelas coberturas que certamente me farão ver vagalumes no outro dia? Talvez uma boite com as mesmas músicas que ouvi durante o ano todo! Eu sempre fico com a melhor, mais típica e “tranqüila” das opções: um lual. E o que vestir? Tudo me arde e me coça, a insolação me deixa com sono e na fossa. É feio ficar de biquíni, durante a noite, enquanto todos estão arrumadinhos? Mas se eu for pra casa colocar uma roupa sei que vai dar preguiça e abraçarei o travesseirinho...


Meio embaraçada eu durmo, acordo e não entendo nada. Meus familiares querem fazer uma churrascada. E coisa que não engulo na praia são os churrascos dentro de quintal. Sou a última a chegar e a primeira a sair. Não que eu não queira a presença deles, mas é que ficar em quintal – sem olhar para o mar – é bem menos atrativo que comer um peroá lotado de gordura velha, e mesmo assim delicioso, nos quiosques de frente para as ondas e com os pés na areia. Passamos o ano inteiro trabalhando em salas fechadas e olhando para as mesmas caras e, quando temos a oportunidade de conhecer gente nova vamos nos trancafiar em quintais? Never, never more... Vamos à la praia, ô, ô, ô, ô, ô...

E o verão vai terminando, enquanto meus olhos fazem enchente ao se despedirem do Monte Aghá. E os embaraços do verão vão embaraçando meu cabelo tingido, ventando em minha saia, atrasando minha hora de dormir por conta da gandaia. Eu me embaraço em grande paradoxo, não me entendo e me enrolo... Sequer suporto essa estação, mas bem que eu gostaria – que nessas horas de despedida – o sol me pegasse no colo.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Não Engulo


Xerox mal tirada
Carne mal passada
Fila de espera sem assento
Ralar a bunda no cimento

Ar condicionado ressecando o nariz
Medo de ficar por um triz
Covardia com animais
Enchentes e temporais

Dormir toda tapada
Debochar de uma desgraça
Dar voto nulo
Ouvir disco "chulo"

Salgados gordurosos
Extermínio de judeus e leprosos
Curva sem sinalização
Trocar um livro por televisão

Falar da vida alheia
Não notar a lua cheia
Pensar só no futuro
Desprezar o claro ou o escuro

Casas com barata
Leite com nata
Filme X platéia falando
Dormir e acabar não sonhando

Bebidas mais caras
Comidas mais raras
Bom senso, o bom gosto
Celular que cai do bolso

Quem diz que sou cachaceira
Não sair na sexta-feira
Todo vício em remédio
Dormir de tanto tédio

Desprezar uma idéia original
Trio Elétrico no carnaval
As novelinhas da Rede Globo
Willian Bonner e sua cara de bobo

Casamento sem amor
Problema nos rins: grande dor
Drogas no meu bairro, em minha esquina
Passeata do flamengo e buzina

Qualquer tipo de número ou conta
Não "fazer o quatro" quando estou tonta
Coca-Cola sem gás
Esquecer de quem ficou para trás

Enfim, não engulo
Abandonar livro e poesia
E estudar para a prova de Economia

sábado, 9 de agosto de 2008

CARTA DA LUA (para minha prima Gisela)



Por que estou parada aqui? Já era para eu ter ido embora. Será que preciso que me olhes mais uma vez. Sei, eu gosto do jeito que me olhas e me visita de madrugada. Te vejo como um ser humano na ansiedade de conseguir o que se quer.
Ei Gi... Eu estou aqui, esperando por seus olhos vidrados. Ora cheia... Cheia de problemas, ora vazia... Vazia de lamentações, ora crescendo... Crescendo para os ensaios da vida, ora minguando... Minguando diante da enorme pequenez do mundo.
Sou como uma gota na imensidão. Sou o vestígio do que fui pelas madrugadas aparecendo numa manhã quase nublada. E, o que fui pelas madrugadas? Eu fui a Rainha da Noite entre tantas estrelas, fui o seu motivo para chegar até a janela e me ver. Por quantas e quantas vezes tenho banhado as suas lágrimas. Ah! Se soubesses o quanto eu a conheço talvez perdesse o encanto que tens por mim, porque na verdade não sou nada demais, se pensares bem sou apenas uma lua que cintila.
Será que gostas de mim por minha determinação, pois venço os prédios e, quando desejo, escondo-me através das nuvens "tapando a cara" de vergonha diante da frieza dos seres humanos. Passo por tubulações, mas não desisto. Continuo aqui, vendo mais de mil gerações crescerem e desaparecerem tão inexplicavelmente quanto surgiram.
Numa conversa com as estrelas descobri que foi Deus quem me fez e, que esse mesmo Deus fez você, então está explicado o porquê de nossa sintonia. Mas, ao mesmo tempo em que descobri essa coisa linda, também ouvi algo lamentável de uma estrela bem antiga. Ela soube que ensinam nas escolas que eu não possuo vida, e que sou desprovida de qualquer coisa que possa valer a pena (deixa para lá, quem sou eu para discutir as idéias dos homens), o que sei é que as crateras que possuo em mim são justificadas pela eterna falta que minhas filhas me fazem.
Seria gratificante que dissesse sempre para as pessoas o quanto gosta de mim, sei que elas me enxergam com outros olhos. Já notei que me esperam e, muitas vezes, choram quando não conseguem me ver. Queria ajudá-las, mas não posso, o máximo que posso fazer é demonstrar através de minhas fases que as coisas podem mudar. Acho até que elas me entendem, mas sentem-se perdidas com minha amarga ausência.
Já te vi muitas vezes chorando pela falta que eu lhe causo, por quanto tempo deve ter xingado aos céus por tamanha tristeza e indignação. Nessas horas, eu morria por dentro e por fora. Sei que não sou a causadora de sua dor, mas sou culpada porque agora não tenho mãos para secar suas lágrimas, nem o abraço para te acalentar.
E é por isso que sempre apareço cada vez mais bela, descobri que isso te comove. E, como é lindo o seu sorriso e a sombra de sua saudade refletida no chão. Queria muito ter pernas, não só para seguir seus passos, mas sim para voltar a caminhar ao seu lado.
Sou a sua lua, sua marca registrada, a mesma lua que enlouquece os amantes num espaço próximo ou distante. Sou o enigma das coisas que diz e não termina de dizer e isso me deixa submersa tentando entender suas mensagens, assim como os amantes tentam decifrar minhas figuras.
Sou a sua lua de sorte, sua visita mais desejada. Sou a testemunha do maior espetáculo da natureza: seus olhos claros, esperançosos e aflitos me esperando!
Então, depois de milhões de anos de espera e de admiração em todas as suas reencarnações, acabei conhecendo uma estrela cadente bem doidinha que não parava de piscar. A tal da estrelinha disse que me ajudaria no que fosse necessário e me deu até a idéia de escrever-te, veja só! Ela foi para o seu planeta para aprender a escrever, a ler e a sentir amor, passou uns dias escondida vendo como você era dentro de casa, no trabalho, com os amigos, com o seu marido e familiares. Enfim, essas coisinhas que infelizmente, não consigo mais ver. Aí, a estrelinha voltou cheia de história para contar. Por isso, estou enviando a minha cartinha pelas mãos dela. E Gisela, receba essa carta com todo o carinho e me encontre onde estou feliz, me procure no céu!

terça-feira, 29 de julho de 2008

PELO AVESSO


Sentimento pelo avesso
O fim antes do começo
Livro de palavras mudas
E letras que me deixam desnuda

O que me faz olhar de frente
São as folhas de trás para frente
É a abelha fazendo o mel
Meu inferno oculto no céu

Não perdi o elo do sorriso
Tampouco a falta de senso ou juízo
Rabisquei um mundo de anotações
Em linhas tortas que seriam canções

Eu só escrevo e não movo “uma palha”
Será que apenas afio a navalha?
Cortando o pescoço na lâmina do desprezo
Sublinhando os meus medos que desconheço

As folhas caem e o outono desaparece
As estações mudam, o calor não aquece
Observo, de longe, o raio de sol que teima em sair
E agradeço as nuvens que o querem cobrir

segunda-feira, 21 de julho de 2008

A Serviço da Calmaria Interior


"Conversa para boi dormir? Que nada! Apenas remedinhos para adultos problemáticos dormirem".

O que há por trás da tarja preta dos remédios controlados? O que ela poderá esconder? Atualmente eu sinto a tarja preta em meu cérebro, vinda dos remédios que tomo quase todas as noites da semana. Nos fins de semana, minhas dependências são outras: uma overdose de carinho do irmão; as ligações saudosistas para a família de Bom Jesus; uma boa dose de café com leite da vó Mariza; o olhar estatalado assistindo a filmes de suspense com papai e a língua enrolada de tanto ler histórias para mamãe...

Durante a semana sou subtraída desses momentos. O trabalho exige de mim o que sempre estou disposta e gosto de dar: minhas mãos nervosas nas teclas do notbook; a faculdade são camiliana, que de santo só tem o nome, me retira todo o bom humor, por ter de lidar com a ignorância de tantos e com o medíocre sistema burocrático de muitos; o almoço perde o gosto por não ter sido feito especificamente para meu agrado; os salgados gordurosos entopem as veias e de grão em grão lá se vão minhas moedinhas; Os shoppings de Cachoeiro de exibem as roupas da moda que eu jamais usaria.

Ainda bem que na Capital Nacional da Crônica tenho amigos que são "pau pra toda obra", caso contrário, meus alicerces fundados em Cachoeiro de Itapemirim logo seriam desmontados, pois faltariam motivações e sorrisos a me esperarem no início do dia e os longos bate papos empolgados nos fins de noite. Mas as noites não são apenas feitas para os amantes e apaixonados. Ela existe para todo mundo, inclusive para mim: estudante com medo do escuro. E minha casa... Bem, minha casa me protege, ou deveria proteger; - pelo menos é para isso que servem paredes e concretos. Mas quando abro a janela e olho as estrelas é que percebo o quanto romanticamente estou só. Não sinto falta de um marido ou cachorro, pois são todos "farinha do mesmo saco", ambos pedintes e vulneráveis.

Falta é Mimoso do Sul em meu lar; falta a minha família nos pedacinhos de chão empoeirado que varro todos os dias; falta meu pai pra consertar o chuveiro e minha mãe pra arrumar as compras, falta meu irmão trazendo refrigerante. Enfim, falta a felicidade por completo! Va bene! Já falei sobre isso antes: duas vidas, duas estantes... Felicidade dividida. Cinquenta por cento por aqui, cinquenta por cento por lá.

Numa cápsula protetora me permito buscar a felicidade artificial ao me aventurar no que está escrito nas caixas de remédios tarja preta: “Venda sob prescrição médica. O abuso deste medicamento pode causar dependência”. Bem que eles avisaram. E, cá estou com a vida independente dependendo de um comprimidinho de apenas meio centímetro. Entre letras pequenas e práticas da bula eu busco um sono pesado que não me deixe dormir tão tarde e me faça acordar mais cedo. O comprimido, em silêncio, passa por minha garganta e os carros, com barulho, anunciam que a noite será longa. Se busco respostas nas substâncias químicas não sei, mas encontro nas letras pequenas, espremidas e práticas da bula um pouco de satisfação que não tenho em minha vida grande, espaçosa e lunática.

Talvez eu esteja domando as dores da alma ao empurrar compostos químicos para dentro do organismo. Ah! Freud explica! Afinal, "não quero me sujar fumando apenas um cigarro".

E como não nasci no Rio de Janeiro, mas sinto-me otimista da gema, talvez eu saia no próximo carnaval vestida com as diversas notificações coloridas de receitas branca, azul, amarela... Seria o máximo sair na escola de meu bairro com as cores dos medicamentos psicotrópicos. Meu bairro? Mimoso? Carnaval? Bateu a saudade! Acho que é hora de abandonar as letras e tomar mais um remedinho...

domingo, 20 de julho de 2008

A Poesia do Peroá


A prancha submersa me leva
Mas nem sei se quero ir
Entre mineiros revoltosos e peroás gordurosos
O pileque cria monstros e mares assombrosos

Fiquei tonta, chamei quiosque de “quisque”
Tomei cerveja e arrotei fragmentos de whisky
Areias lotadas e espaço não há
Assovio para o garçom:
- Me traga agora um peroá!

Minha mesa? Eu sento na rua
Engradados de cerveja me sustentam
A cachaça eu tomo crua

Hoje, só hoje...
Deixarei nas areias o meu coração
Quem sabe um pescador de bêbadas
Me leve de arrastão?!?

E o peroá... Tão pequenininho
Quanto mais incompleto
Mais aumenta o seu precinho

O sururu? Desapareceu da minha frente
A ostra? Não engulo demoradamente
A farofa? Lembra os farelos de minha vida
O peroá? Faz digestão na barriga

É hora de ir embora
Estou muito mais que tonta
Já chamei urubu de meu loiro
Mas primeiro tenho que pagar a conta

Quando chego na mesa improvisada
Tomo um susto, dou um grito, sinto medo
Meu peroá pequenininho e carnudo
Agora não passa de um esqueleto

Fui.......Fui... E acompanho o trem das onze
Irchi!!! O trio elétrico
RAUUUUULLLLLLLLLL...Tô de frente para o mar...
Mas pensei que fosse a "Lagoa Azul”

Divagações Sobre a Necessidade de Parar de Beber...

Querido Diário Colorido... Me deixe Escrever Qualquer Coisa que Saia com Rima!?!

Anoitece. A lua me espera e eu me apresso. Retoco-me em frente ao espelho... Tudo no lugar: na boca, batom vermelho; na cabeça, o sonho de uma noite sem pesadelos. Buzinas me chamam. Abandono o meu quarto e o silêncio. Preciso da noite e do que ela me traz: ilusões com os goles a mais. Hoje eu quero jogar conversa fora e botar bebida pra dentro, mesmo sabendo que daqui a pouco nem eu mesma me agüento. E eu vou sair, vou dançar, com ou sem par.
Música alta, cantadas. A noite se resume em queixumes, sempre nas mesmas conversas fiadas. Um gole, um trago; dois goles, três tragos. Mais uma música, mais uma cantada. Solidão! Nem consigo contemplar a noite enluarada? O copo esvaziou e não bebo espuma. Por favor, ô garçom, me traga mais uma! Acabou o cigarro, mas carrego no pulmão um estoque de tosse com catarro.
Números de telefone em guardanapo são ofertados. De quem é o número? Ah!, deve ser de alguém que beijei lá do outro lado. E, por favor, não me façam perguntas enquanto eu estiver nesse estado. Muito menos me falem em beijos, pois perdi meu namorado. Falsos elogios não são dispensados.
Eu troco de bebida e peço algo mais forte, e enquanto engulo o Dreher adianto a minha morte. Caí do salto, voltei com a sandália na mão. Só não dormi no asfalto porque um anjo da guarda me pegou pela mão. Quem era o anjo? Um Policial Rodoviário me dando carona no camburão.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

ISABEL ARRUMANDO AS MALAS (in memoriam)




Tia Bebel se arruma,
dá um retoque em seu rosto de boneca,
mira-se no espelho, penteia o cabelo.
Será que vai à festa?

Uma vida em cinquenta anos,
sempre sorrisos e muitos planos.

A tatuagem de escorpião na canela
ficou apenas no sonho.
Contempla o Itabira da janela
cantarolando o Rei... “eu te proponho”

Sorriso aberto, dentes brancos e escancarados.
O mal humor chegou? Eles logo serão fechados.

Voz alta, presença alegre e constante.
Se era caprichosa? Perguntem a sua estante.

Sabonetes glicerinados produzido por suas mãos,
pintar quadros? Mais uma de suas artes e distração.

Reunir a família, agregar sentimentos.
Saudade das filhas que moram tão longe...
Que lamento!


Poetisa num simples diário,
amante do Recanto das Letras.
O que seria de mim se ela não existisse?
Eu mesma respondo: apenas um livro sem letra!

A casa imensa,
o coração maior ainda.
Na frente do papel ela pensa
e a noite, estrelada, se finda.

Amanhã ela vai partir
e lágrimas vai deixar,
amanhã, nosso mundo vai cair
e o céu vai comemorar.

Hoje ela sobe, com preguiça, a escada da casa,
amanhã subirá os céus na companhia de uma asa.

A noite, pega o terço e reza...
Por que ir embora tão depressa?
Ela acorda e segue viagem...
Vai não, tia! Pare de bobagem!

Fica mais um pouco!
Vamos pra casa da vovó?
Não. Eu prometi me encontrar com a lua,
Não posso deixá-la tão só!

Oh! Tia Bebel, mas como é teimosa!
Que dia faremos a nossa poesia e prosa?
E a crônica? Quando vai pintar os quadros das meninas?
E a fogão à lenha na roça? O quentão para a festa junina?

Renata, garota ansiosa! Tira essa revolta do coração,
cadê sua crença de que nos veremos em outra estação?

Ah! Vê se não me desaponta mais!
Estude, trabalhe e não chore mais.
Onde já se viu uma italiana
entregar os pontos e pensar para trás?

Leia meus versos e sinta meu cheiro,
saiba que sinto falta da família,
dos amigos, do macarrão do papai e da mamãe...
Hum! O amor é o verdadeiro tempero!

Agora tenho que ir, prometi não demorar,
pois lá encima uma linda harpa espera:
a minha voz, o meu sorriso, o meu cantar
!

MURO PIXADO


Elevadores de arranha-céus levando homens às alturas; livros de auto-ajuda nas mãos de quem não ajuda ninguém com sequer um vintém; nas ruas em que ando apressada por todos os dias, leio releio a frase pixada no muro: Jesus Voltará! Mas como voltará, se ensinam que Ele está dentro de nós? E se voltar? O mundo globalizado e alienado não acreditará em Sua Volta. São tantas crenças e descrenças. Voltaria reencarnado? Ressuscitado? Apenas o espírito? Com roupas de Ghandi? Meditando? Psicografando? Com o cabelo grande? Epa! Ouço roqueiros, alegremente, apostando que sim... Sei, tudo são balelas, e Ele não virá, porque já está... Mesmo que, às vezes, pareça brincar de pique-esconde com a menina Isabella que literalmente “caiu e foi jogada” numa brincadeira, sem contar com qualquer mão que pudesse salvá-la – mas isso é coisa que assistimos nos filmes de Super-Homem, mas se até ele caiu do cavalo, quem poderá nos salvar? Talvez, o Chapolin Colorado.

E da frase “pixada” escorre uma tinta vermelha e escura que se comparam as marcas de sangue nos asfaltos, em acidentes causados pela imprudência dos demais. Jesus estava lá? Creio que sim, pelo menos foi fotografada a Sua imagem esculpida em madeira, retorcida por conta da violenta batida do carro.

Com um pouco de sensibilidade, podemos facilmente encontrar na boleba dos olhos das crianças um Jesus que ainda exista e persista; na calma de uma senhora atravessando a rua para comprar – quem sabe pela última vez – o pão de cada dia, naquela padaria sempre lotada em que os vendedores nem reparam os clientes mais antigos. Amigos? Jesus também está neles, nos gestos de ajuda, nos tirando do sufoco, e nos colocando dentro dele para que possamos aprender, nem que seja na dor.

E tantas coisas poderiam me parar! Mas daquele muro “pixado” nunca me esquecerei. Não me esquecerei das letras de revolta transbordadas com o vermelho da violência em paradoxo com o verde na alma de esperança, naquele beco qualquer suburbano e “sujismundo”. Não, eu não pararia para ver um outdoor com as roupas de marca, nem com as roupinhas de sucesso, nem com a foto do carro do ano (ah! essas jogadas de marketing tão sedutoras!).

O que me fez parar e mexeu com o coração foi simplesmente o muro pixado. E onde está Jesus? Nos que tentam impor sua verdade ao “invadir” a residência e resistências das pessoas? Ou nas igrejas pentecostais, que aos berros, ensurdecem o que deveríamos escutar: o farfalhar dos pardais.

Por tanta dor e sofrimento, por tanta vontade de ouvir o canto dos pássaros, pelo imenso desejo de que as coisas realmente melhorem... Acredito mesmo que Jesus está dentro de nossa vontade de fazer algo de bom. E nesse mundo hipócrita isso já está de bom tamanho! Pois se fôssemos Ele, já teríamos nos abandonado há muito tempo.