segunda-feira, 24 de agosto de 2009

POR ONDE ANDA BELCHIOR?


“Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho, deixem que eu decida a minha vida.”


Por onde anda o grande ícone da MPB Belchior? Teria se entregado ao ostracismo? Está preso em casa com medo de avião? Alguma alucinação? Largou mesmo o microfone, o violão e subiu na garupa da solidão ao se refugiar num canto qualquer da vida? Ou virou El Condor a voar pelos andes?

A voz da América quer respostas de um cidadão comum, rapaz latino americano que desapareceu sem deixar pistas, pois apenas vozes no velho rádio à pilha ou aparelhos de som evoluídos trazem de volta um pouco da importância de Belchior na música popular brasileira.

Será mesmo que o Cordial Brasileiro não está interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, além do algo mais?

Na fotografia 3X4 em matérias de jornais e revistas, tudo são teorias girando ao redor do cantor bigodudo que no palco ou fora do foco será sempre o cidadão comum vivendo a divina comédia humana onde nada é eterno.


“Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer “não” eu canto.”

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Despedida (in memoriam a Tia Bebel)

Quando a transitoriedade da vida nos pega de surpresa, nada mais nos resta do que tentar entender. Quando não entendemos, ou quando o sentimento de saudade teima em aparecer, qualquer lembrança é uma dor a mais. Minha forma de sentir falta é externada pelas letras dessa poesia que jamais pensei em escrever um dia...

Tia Bebel se arrumava,
dava um retoque em seu rosto de boneca,
mirava-se no espelho, penteava o cabelo.
Será que ia à festa?

Uma vida em cinqüenta anos,
sempre sorrisos e muitos planos.

A tatuagem de escorpião na canela
ficou apenas no sonho.
Contemplava o morro Itabira da janela
cantarolando o Rei Roberto: “eu te proponho”.

Sorriso aberto, dentes brancos e escancarados,
mas se o mal humor chegasse, logo eles seriam fechados.

Voz alta, presença alegre e constante.
Se era caprichosa? Perguntem a sua estante.

Sabonetes glicerinados produzidos por suas mãos.
Pintar quadros era mais uma de sua distração.

Reunia a família, agregava sentimentos.
Sentia saudades das filhas que moram tão longe.
Que lamento!

Poetisa num simples diário,
amante do Recanto das Letras.
O que seria de mim se ela não existisse?
Eu mesma respondo: apenas um livro sem letra!

A casa imensa,
o coração maior ainda,
na frente do papel ela pensa
e a noite estrelada se finda.

Amanhã ela vai partir
e lágrimas vai deixar.
Amanhã, nosso mundo vai cair,
mas o céu vai comemorar.

Hoje, ela sobre, com preguiça, a escada da casa,
amanhã, subirá aos céus, na companhia de uma asa.

À noite, pega o terço e reza...
Por que ir embora tão depressa?
Ela acorda e segue viagem...
Vai não, tia! Pare de bobagem...

Fica mais um pouco!
Vamos para a casa da vovó?
Não. Eu prometi me encontrar com a lua,
Não posso deixá-la tão só!


Oh! Tia Bebel, mas como é teimosa!
Que dia faremos a nossa poesia e prosa?
E a crônica? Quando vai pintar os quadros das meninas?
E o fogão à lenha na roça? O quentão para a Festa Junina?

Renata, garota ansiosa! Tira essa revolta do coração,
cadê sua crença espiritual de que nos veremos noutra dimensão?

Ah! Vê se não me desaponte mais,
trabalhe bastante e não chore mais.
Onde já se viu uma italiana
entregar os pontos e pensar para trás?

Leia meus versos, sinta meu cheiro,
saiba que sinto falta da família,
dos amigos, do macarrão do papai e da mamãe...
Hum! O amor é o verdadeiro tempero.

Agora tenho mesmo que ir, prometi não demorar,
pois lá encima uma linda harpa espera:
a minha voz, o meu sorriso, o meu cantar!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Silêncio em Noite de Chuva


Conhecer o gosto e o som do silêncio que conforta e nos permite ouvir a respiração de quem amamos ao lado é quase um dom, uma dádiva. Saber apreciar e ouvir o silêncio quebrado pelas gotas de chuva no telhado em dias e noites de frio, é no mínimo, um encontro com a paz, que nem seria guerra se fosse quebrada por corações descompassados.

O cenário: meu irmão dormindo ao lado. Na madrugada fria, ele corta o silêncio resmungando que teve pesadelo. “Atrapalho” o seu medo sussurando palavras de calma e carinho: - fique calmo, estou aqui! Ele adormece e ouço o barulho de minhas mãos fazendo carinho em seu cabelo. Dessa noite de silêncio, jamais esquecerei.

Silêncio não é quando evitamos o que queremos dizer, quando deixamos para depois as coisas que sentimos, quando “ficamos de mal”. Silêncio pode ser até barulho, desde que traga paz. É respeito, é entender a dor do outro.


Silêncio é o cérebro em turbilhão fazendo planos, resgatando lembranças enquanto o rosto permanece meio sonso e imóvel, apesar da boca soltar palavra sequer.

sábado, 18 de abril de 2009

O Perfil dos Vitoriosos (cultura banalizante)


Na certeza de que o domingo seria improdutivo, aderi ao “ficar de pernas pro ar”, assistindo no conforto do sofá, o Programa “Melhores do Ano”, do Domingão do Faustão, exibido no dia 12 de abril de 2009. E no Hortifruti dos artistas, muitas frutas foram trituradas injustamente...

De um lado, as compositoras-cantoras Ana Carolina e Vanessa da Matta carregando na mala a experiência do poetizar e originalidade. Do outro lado, Ivete Sangalo chamando Dalila e levando o público ao delírio.

Na santa guerra musical ganhou, pelo menos em programa popular, a “incultura brasileira”. Sim, qualquer manifestação artística é considerada cultura, por isso suavizo e afirmo que venceu a cultura banalizante dos trios elétricos. E Ivete é mesmo boa em muita coisa: pernas, voz grave, caras, bocas e sorrisos insinuantes. Carisma não lhe falta, audiência na Rede Globo, muito menos. “E quem não quer ter uma música de sucesso na novela das oito?”

Os “feras” da dramaturgia brasileira também se saíram bem, mas por não assistir novela, nem posso meter minha colherzinha no assunto.

Graças ao meu pai, no quesito música, eu tenho uma leve noção para diferenciar o péssimo e o excelente... The Beatles, Pink Floyd, Caetano Veloso, Tim Maia, Queen, Milton Nascimento, músicas clássicas, Tom Jobim, Elis Regina, Belchior, Cazuza, entre outros, apuraram meus ouvidos dentro ainda da barriga de minha mãe e me permitiram conhecer novos talentos numa fase mais madura. Por isso, minha idéia de talento vai além dos sucessos momentâneos, de duplas que entram e saem no cenário musical sem trazer algo de qualidade. Uma boa música deve ser - no mínimo - eterna.

No Programa, de consideráveis resultados musicais, apenas D’Back e Seu Jorge tiveram uma vitória merecida. O estilo diferenciado, as músicas de cunhos sociais e pouco apelativas conquistaram uma boa parte do público, porém, o que rolou por lá nem foi reconhecimento popular, foi falta de opção.

E com defeito de fábrica, mas aprovado pelo gosto da massa, os bonequinhos pré-moldados Victor e Léo desbancaram Vanessa da Matta, no tema Música de Novela. A compositora da MPB “perdeu a vez” tanto para o Axé (quando concorreu com Ivete); quanto pelo Breganejo (ou forró universitário, ou mela cueca, a definição é alguma coisa do tipo).

Mas entre as duplinhas, os músculos da Ivete e mau gosto popular, o maior disparate ficou por conta do quesito Atriz Revelação. A gaúcha Larissa Maciel, que interpretou brilhantemente bem a cantora Maysa, no seriado “Maysa, Quando Fala o Coração”, foi desbancada pela mineira Mariana Rios, da Malhação. Quem assistiu Larissa Maciel no seriado, sabe bem do que estou falando. Aliás, nem é necessário entender patacas alguma para perceber a grande banalização popular.

Depois de tudo isso, só espero que meu domingo termine bem, e principalmente, sem Big Brother Brasil!



















sexta-feira, 10 de abril de 2009

O Pior Castigo (um breve relato para não dizer que não falei do Rider)

Bastava ele aprontar e todos já sabiam: algum castigo iria receber! As opções de sofrimento eram quatro: o belisco fininho da mãe; o chinelada Rider do pai; esconder-se embaixo da cama (correndo o risco de apanhar em dobro) ou fugir. Definitivamente, deixar de aprontar não pertencia ao mundo maluco do moleque com a cabeça nas nuvens.
E encurralado, fazendo cara de anjo, ele acabava por escolher a mais materna e “acolhedora” das opções: belisco fininho da mamãe. E tudo era quase um ritual. A mãe mordia a boca de nervoso, prendia os pés do guri entre seus pés e tome beliscos. Voltando no tempo e tirando o ritmo do texto, lembro que certa vez o acompanhei para tomar vacina e a enfermeira disse para acalmá-lo: dói nada não, é igual um belisquinho. Pronto, bastaram apenas essas palavras para que carregasse pela vida inteira verdadeiro pavor de injeção.
As chineladas do pai? Foi somente uma vez que presenciei tal cena. Antes, porém, que eu tivesse pena, o garoto confessou, entre dentes, que apanhou pouco pelo tanto que fez. Sim, apanhou pouco, mas o suficiente para lembrar, com detalhes, da palmada oca do Rider “novinho em folha”. E nem havia preparação ou ritual: o pai varejava o “instrumento de tortura” de onde estivesse. De perto, doía, de longe, ardia...
Hoje o garoto cresceu e seus medos são outros, pois assim como as pessoas, as coisas também mudam. O pai não usa mais Rider; a mãe, por conta da tendinite, nem tem habilidade, seja para fazer crochê ou beliscar... A cama ficou pequena e não cabe um grandalhão embaixo dela e fugir já não faz sentido, ele é bicho solto querendo retornar ao ninho.

Hoje o pior castigo é o silêncio.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Fragmentos

Ele acorda de um sono tranqüilo, a cabeça não pesa, pois não é homem de ambições ou prisões capitalistas.
Levanta e se admira com o cantar do pássaro. Será que o comedor de alpiste de sua residência sabe entoar a paródia Meu Pequeno Cachoeiro?. Pelo intenso calor daquele dia, ouso dizer que sim.
O pássaro canta e Seu Nelson faz trova. Lucila, sua companheira de tantos anos, sorri e no amor se renova.
Ele faz uma pilhéria, um gracejo qualquer... E guarda suas trovas românticas onde ela possa se surpreender: embaixo do prato, dentro do sapato, no meio das rosas. Nelson Sylvan: perfeito amante em versos e prosas!
À noite, ele sonha com o monólito Itabira e com o Frade e a Freira.
De dia, admira as crianças com suas mochilas pesadas e as gritarias tão corriqueiras.
O Decano dos Trovadores se orgulha de nunca ter sentido dores e responde ironicamente a Cláudia Sabadini: “a hospital eu nunca foi, nem nunca senti nada”. E pensa: aposto que você, menina tão nova, já deve ter ficado algumas vezes hospitalizada.
Seu Nelson, exemplo de reserva moral e cultural de Cachoeiro de Itapemirim conversas “horas a fio”, pelo fio do telefone com o amigo Athayr Cagnin.
“Nelson Sylvan, Sempre e Sempre”, já dizia Higner Mansur em sua admiração pelo jovem de 97 anos... Sempre feliz com a vida, apesar de ela ser repleta de tantos desenganos.
Político militante, hoje observador mordaz, se identifica com o Integralismo: movimento político que participou tempos atrás.
Foi contemporâneo e companheiro de Rubem e Newton Braga. Quando adulto, no Centro Operário, suas pernas na incansável lida, subiam e desciam as escadas.
Lutou e luta pelos ideais ao qual se dedica por toda a sua trajetória e na Academia Cachoeirense de Letras vai fazendo a sua história.
Com um toque suave e sadio de comicidade, ele escreve sobre o calor infernal da cidade.
Nelson Sylvan, eternamente modelo de vida e exemplo de um homem de verdade.

terça-feira, 24 de março de 2009

Inconsciente Coletivo (Entrevista)

Há 11 anos morando em Cachoeiro de Itapemirim e há cinco anos e meio instalado na cidade como vendedor de livros usados, Alejandro contrasta com a indiferença dos que se intitulam leitores na Capital da Crônica.Ele explica o inconsciente coletivo e critica a sociedade que prende os livros e os exibe como troféus, sem sequer emprestá-los e nem passar o conhecimento para o próximo.

Durante o tempo em que trabalha com livros usados, o senhor conseguiu formar algum leitor?
Até hoje não, mas continuo tentando por meio do incentivo à leitura e emprestando os meus livros. De dez livros emprestados, nove não voltam para as minhas mãos e toda essa falta de conhecimento poderia ser considerada inconsciência coletiva.

E o que seria inconsciência coletiva?
Usando uma linguagem leiga, para o leigo entender, o inconsciente coletivo é a bagagem que contém todos os hábitos de uma sociedade que não lê. Um exemplo disso é a própria cidade de Cachoeiro de Itapemirim, que apesar de ser intitulada como a Capital Nacional da Crônica, é uma sociedade que não lê. Falo isso pela constatação diária por ver uma multidão passar pela minha banca de livros e sequer enxergá-los.

O senhor consegue vender muitos livros?
Não. O meu recorde local são quatro semanas sem vender 1 livro sequer. Mas ao meu lado trabalha um moço que vende DVD pirata, onde quase todas as pessoas param e compram.

Quais são os maiores exemplos de inconsciente coletivo?
O desrespeito às leis de trânsito, não emprestar e nem doar livros usados. Mas o ápice da inconsciência ocorre em época de eleição, em que os corruptos são eleitos e reeleitos. Afinal, o ignorante é movido pelo inconsciente coletivo e uma das leis fundamentais, assim como o instinto da sobrevivência é a lei da semelhança (os semelhantes se atraem).

Quais livros não podemos deixar de ler?
Recomendo a leitura de “Psicologia das Multidões”, de Gustav Lebon, “Jogo e Estrutura das Personalidades”, de Pedro A. Griza; “O Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley e “Vidas Secas”, de Graciliamo Ramos.

O senhor poderia deixar um recado aos amantes da leitura de Cachoeiro de Itapemirim?
Deixo um pouco de algumas frases que gosto. Monteiro Lobato escreveu: um país se constrói com homens e livros. Jesus pregou: amai-vos uns aos outros como vos amei e praticai a caridade. Gandhi falou: todo ser vivo é o nosso próximo, incluindo os seres vivos e as plantas. Tolstoi disse: faça o bem o mais que puder. Eu, Alejandro, repito que quem segura livro é inimigo da humanidade. Essas são verdades filosóficas ditas em diferentes épocas, por homens diferentes, de culturas diferentes, mas que falam a mesma língua, que é a língua do amor.

















A entrevista foi realizada em dezembro de 2007, época em que eu era repórter do Jornal O FATO. Atualmente, Alejandro não se encontra mais em nossas ruas... Foi buscar outros caminhos.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Pipa

Ela pegou um pouco de tinta aqui, acolá e voou toda colorida. Esbelta, era desejada por moleques levados, por moleques quietinhos, por moleques envergonhados. Fugia deles. Pipa solta não pretendia se amarrar.
E foi conhecer a imensidão do céu. Pegou emprestado um pouco mais do azul na Região Sul. Da liberdade, fez a sua casa; da rabiola, a asa; do colorido, o sentido. Entregue ao léu conversou com passarinhos, descansou em montanhas e moinhos. Namorou os dias, adentrou no ir e vir do vento e das horas. Dias iguais, liberdade demais. Foi se chateando com as paisagens belas, que aos poucos, perderam o sentido. Admirar sem o amor ao lado ou dentro do coração é como “suportar” quadros abstratos em Exposição. E quis saber por onde anda certo menino que a fazia voar querendo vê-la voltar? Sentiu falta do aconchego, e enquanto se aproximava de casa, a tempestade lhe causava medo. Timidamente, voltou para as mãos do menino. Ele sorriu e suspirou um Seja bem-vinda. Abriu a porta, mas a Pipa - como beija-flor trazendo boa notícia - preferiu entrar pela janela. E toda a altura e imensidão desejada fizeram parte de uma época passada. Hoje A Pipa só é realmente feliz em sua Morada...

DIÁLOGO: “ - Ali, parece uma borboleta indo buscar o pólen de uma margaridinha. Ele concordou com ela e jurava enxergar também uma segunda borboleta pousando na flor. Já não existia mais dia nublado para aqueles dois. Só existia o amor.”

*Baseado nas fotos e frases do orkut de Karina Peixoto.

Morada

No jardim da Morada tem árvore grande, planta de cheiro, borboletas ao redor. Não tem desespero porque o amor fala por si só. Há pessoas felizes fugindo das interpretações tão comuns de atores e atrizes. Clips representados pela duplicidade, mãos cuidadosas trabalhando na mesa da vida, do destino rumo à felicidade.
Morada grande ou pequena? Será que isso importa? Menina e menino não julgam por medidas, peso ou tamanho. O que vale é jardim cuidado, a água brotando, a sombra que conforta. Vale pegar a fruta que cai do pé, achar um bichinho e não disputar com ele o alimento.
Na morada, eles ficam de mãos dadas. Dividem os problemas, somam os gastos. Descabelam-se pelo mês que “perderam o passo”.
Mas o livro A História Intima da Humanidade sugere que estamos sempre na corda-bamba e insegurança. Tem problema não, seu escritor... Na morada, há sempre o equilíbrio num Fio de Esperança.

DIÁLOGO: “Seremos nós dois um tango improvisado na cozinha de uma casa alaranjada e pequena. O muro a nossa frente ainda em branco ganhará contornos coloridos, sorridentes e entre uma declaração e outra ali rabiscados, seremos apontados como a descrição do mais puro sentimento...”

*Baseado nas fotos e frases do orkut de Karina Peixoto

Fio de Esperança

Equilibrado num Fio da Esperança o pequeno passarinho e sua enorme grandeza fica a cantarolar. Sai voando e sem medo do amor começa a espionar certa casa alaranjada e pequena. E desce procurando algum farelinho pelo chão. Papos animados na cozinha misturam-se ao café, leite e pão. A Pipa faceira logo o reconhece e lembra de sua época de liberdade e solidão, quando vez ou outra proseava com ele pelos descaminhos da imensidão. Passarinho diz que é o momento de ir embora, mas Pipa - toda convidativa – pergunta: pra que voar agora? Ele se deixa ficar na Morada para admirar aquela pipa que nem é ave, mas que será sua namorada.
O casal no jardim rabisca o muro. O molequinho da casa percebe o amor da pipa e do passarinho... E desde cedo descobre que seja como for, o amor é sempre o melhor caminho.

DIÁLOGO: “O passarinho faceiro, amigo que mora sob o mesmo teto vem espionar ....... - Parece que ele não tem medo da gente!.... - Sei disso, é que pra ele... também já somos passarinhos.”
*Baseado nas fotos e frases do orkut de Karina Peixoto

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Minicontos de Verão O Barquinho e os Barquinhos Conto 1 (Balanço)

Vento, sombra, dia de luz... Maysa e a canção O Barquinho no fone de ouvido. Lá fora, ouço Requebras, Éguas Pocotós, Dança da Bundinha. E nada disso importa... A mãe acompanha o balanço do filho. Ele aponta para o ultraleve, ela beberica água de coco e a brisa permite o esquecimento das finanças, do sufoco.
Ainda é Janeiro... O barquinho desliza, os turistas tão poucos - por conta das enchentes - vão se reconhecendo pelos sotaques e placas dos carros em destaque.
O barquinho continua beijando o mar...

* Dedico os seis continhos de verão pra moça que tem "gosto de água e de amigos": Karina Peixoto, exemplo de mãe, cara do sol e de dia de luz, água da praia batendo na canela e cabelos ao vento... Procê merrrrrrmo amiga!!!


Conto 2 (Sem Metal)


A moça solta a juba e o vento causa reboliço. Ela admira o namorado, sorri e volta a prender a cabeleira de uma forma tão forte, como se quisesse segurar a vida ou à própria morte.
Maysa continua cantando no fone de ouvido, me entristeço ao lembrar que a canção também não é eterna. E volto, repito, retorno O Barquinho mais de uma vez. Agora - nos Quiosques - Ivete da Perna Grossa mia qualquer coisa parecida com Berimbau Metalizado. No fone, o violão não tem metal, é apenas sentimento e harmonia, mas nada disso importa... Vivemos num país de BBBosta.
O Berimbau, a Poeira e a Ladeira arrastam mesmo toda a massa e a bunda da mulher corcunda balança, enquanto o cérebro atrofia... E nada disso importa hoje em dia.

Conto 3 (Melhor na Fossa)

O vendedor de picolé não sabe se coça o saco ou se gasta as moedas em mais uma cachaça.
É cedo e o barquinho leva os turistas para as ilhas, que ilhados neles mesmos, esboçam sorrisos diante da natureza.
O picolé derrete e o vento carrega o cheiro de menino arteiro para as narinas da jovem grávida. Ela, aliança nova no dedo e a cabeça cheia de planos. O marido – pensando apenas no futebol – dá um sorriso e relembra o último gol de seu time.
Um tal de Bug Bug Bye Bye toca lá fora... Bug é sapo em inglês, logo percebo que a milionária Ivete enriqueceu dando adeus para um anfíbio. Ah! Maysa, do jeito que as coisas andam, o mais sensato é cair - com sua música - na fossa.

Conto 4 (Inúteis Fatos Reais)

Agora Cazuza me convida seguir uma viagem em “Um Trem para as Estrelas”. - Ainda é dia! Eu respondo. - Quero ver o sol ou pelo menos o céu azul.
Os barquinhos parecem formigas na imensidão, eu, uma astronauta cheia de apetrechos encima da mesa. Roupa quente em dia de verão. Ousadia é rimar sem métrica e criticar o Axé nesta estação.
Peixinhos de brinquedo são abandonados na areia da praia. - Mamãe, eles morrem fora d’água”? Pergunta a menininha de pés descalços. Queria sinceramente que a mãe respondesse: eles morrem sim, tem que cuidar e dar muito carinho. Mas ela se resume em resmungar com má vontade: - Morre não, é de mentira!
Que triste! Logo, logo a menina vai pensar que Papai Noel não existe... Falta encanto, sobram fatos reais. Nada importa, temos na TV futilidades demais.

Conto 5 (Vende-se)

Era uma casa de praia sem areia no chão, sem correria de crianças, com sofá vazio e fogão desligado. Sozinha, naquela imensidão inadequada.
Encontro marcas de pés pequenos na parede da frente. Nos quartos, vejo quadros de dicas para viver bem. Olho a data: 1995. Olho detalhadamente as marcas e descubro que os pés pequenos eram meus. Sem peso na consciência, sigo nada que os quadros mandam. Estamos em 2009.
A mesma praia, a mesma casa e novos medos. Antes, o quintal era o refúgio. Hoje, a placa Vende-se amedronta. Outras pessoas sonharão meus sonhos na cama empoeirada.
O vídeo-game nem espera por mãos aflitas. Minhas primas seguiram sua vida. A rede, vazia.
Casa de praia e nenhuma cerveja na geladeira fantasma. Não há música, nem desenhos de sol no chão. A única coisa que encontro é Renata de cara com o passado, ouvindo o Barquinho, relembrando a infância e o verão.